Avante caminhantes

Na energia do universo, no caminho da alma, no espírito dos ancestrais, na sagrada terra indígena da ilha do Bananal!

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Ao iniciar o mês de julho adentramos às terras, águas flores e animais da ilha, com a benção dos índios Jawaé. Seguimos nos caminhos de muita vida, em partilha, reciprocidade e troca de saberes com os povos indígenas. Nos despedimos, depois de 20 dias, na aldeia Karajá de Santa Izabel do Morro. Atravessamos o Araguaia para um encontro muito especial, em São Felix do Araguaia, com D. Pedro Casaldáliga. Com sua ternura radical e testemunho profético nos conclamou para a causa indígena e nos abençoou como ancião, poeta e irmão maior na fé. Na momento da foto sorridente comentou “é proibido usar em campanha eleitoral.

Vinte dias de travessia e partilha. Quase 100 km de troca de passos, espaços e saberes. Uma caminhada memorável atravessando os medos e as belezas da maior ilha fluvial do planeta. Fomos os primeiros a fazer a travessia a pé. Muitas recomendações e temores: cuidado com as onças, os jacarés, as piranhas. Atravessamos ilesos todos esses medos e apreensões.

Os Jawaé, Karajá e Avá Canoeiro, povos guerreiros e resistentes, nos acolhem com alegria e sabedoria. Tudo no seu tempo e significado. As redes atadas na beira do rio ou da estrada, as barracas embaixo de frondosas mangueiras ou vegetação do cerrado. Tudo acontecendo a contento e a seu tempo.

Quarenta e quatro caminhantes, pé na estrada, mochila nas costas e o coração aberto para o diferente. Fomos sendo surpreendidos pelos bandos de biguá, garças, socó boi e uma infinidade de pássaros. Até os enormes Tuiuiu, em seus ninhos no alto das árvores, vigilantes com seus filhotes deram os ares de sua graça

Quando as bolhas, calos começaram aparecer, era a hora da solidariedade e as paradas para refazer as energias e tratar as feridas no corpo e na alma com os óleos naturais, e os cuidados necessários

A ilha do Bananal: belezas, impactos e ameaças

A ilha do Banana é berço natural de povos indígenas como os Jawaé e Karajá. Há mais de dois séculos se iniciou um processo de contatos e invasões por parte dos interesses nos recursos naturais e belezas da ilha. Porém a invasão maior se deu a partir de meados do século vinte, com a marcha para o Brasil Central. A partir de então interesses turísticos e da expansão pecuária se estabeleceram na ilha. Apesar de ser declarada Parque Nacional e a partir da década de 80, dois terços serem declarados Terra Indígena, as invasões estimuladas por políticos e o latifúndio, dez com que mais de 20 mil pessoas ocupassem a ilha, chegando a ter mais de 100 mil cabeças de gado.

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No governo de Juscelino Kubitschek, foi construído um grande hotel, próximo à aldeia Kararjá de Santa Izabel, com o intuito de desenvolver ali um polo turístico. Serviu como local de férias e safari para os militares durante a ditadura. Foi repassado parar o governo de Goias no iíncio da década de 80, para utilização para o turismo na ilha. Felizmente o projeto não se consolidou. Os índios se livraram do pesadelo ateando fogo no lendário Hotel JK. Hoje restam apenas as ruinas entre árvores e as casas de palha de babaçu.

Outra grande ameaça foi o início da construção da estrada Transaraguaia, em 1983. Houve uma grande reação nacional, pois se considerava essa como “estrada da morte”, da insensatez, da ignomínia. Um absurdo. Teriam que ser feitos mais de 80 km de aterro de 3 a 6 metros. O impacto sobre o ecossistema da ilha seria fatal No depois de iniciadas as obras os índios Jawaé interromperam os trabalhos e obrigaram a retirada das máquinas. Porém até hoje continuam as pressões dos políticos e do agronegócio para a construção dessa estrada. Ainda no ano passado o governador do Tocantins, Siqueira Campos esteve com os Karajá tentando mostrar as vantagens da estrada, fazendo promessas e doando objetos agrícolas. Uma liderança Jawaé, solicitou aos caminhantes que os apoiássemos na luta contra a construção dessa estrada. Nos comprometemos com essa luta pelo bem da vida e da mãe terra. Vimos, sentimos e nos sintonizamos com o direito amplo de todas as formas de vida existentes na ilha do Bananal.

D. Pedro comentou que há mais de quatro décadas, quando aí chegou a ilha era um espetáculo pela exuberância de vida . Infelizmente já foi bastante impactada pelas sucessivas e variadas formas de invasão, principalmente pela pecuária e turismo.

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Nos unimos, no caminho da resistência, afirmação de direitos e da vida, a todos os que lutam para que a ilha do Bananal continue sendo não apenas a maior ilha fluvial do mundo, mas também um exemplo de preservação sócio-ambiental.

Caminhantes da vida na “troca de saberes”, não apenas vivenciamos uma experiência admirável desse grande Brasil desconhecido, mas construímos e assumimos um compromisso com os povos indígenas e a ameaçada biodiversidade dessa região.

Avante caminhantes, o caminho se faz caminhando, com lutas concretas, sonhos e utopias.

Egon Heck e Laila Menezes

Cimi-Secretariado

Brasilia, 24 de julho de 2014

O caminho é mais curto, quando amigos nos acompanham

Foi assim unidos pelos os espíritos das flores, banhados e protegidos pelas Iaras, conspirados pelo universo, pelas forças e vozes da Terra, que quarenta e quatro pessoas se encontram.

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Misturando cores, sons, formas e movimentos. Irmanando a mesma energia e amor que abraça e percebe o sagrado, primitivo, belo como se fizesse o caminho de volta para o gênese para a essência vital de tudo que existe, vestidos de aprendizes sutis, que pouco sabe da cultura ancestral dos povos Javaé e Caraja.

Nossa primeira oportunidade de troca de saberes foi na aldeia Txuire, onde fomos muito bem acolhidos, nos sentimos em casa pois esse povo já estão contaminados quase por inteiro com os nossos vícios e cultura branca.

Foram três dias de encontros, oficinas e passeios por suas casas, podendo ter uma rápida visão de suas vidas e ambiente. Durante o dia se celebrava a vida na escola, local escolhido para realização das oficinas e na vasta areia e águas do rio Javaé.

A noite nessa imensidão de areia em volta da fogueira troca de conhecimento, conversas, brincadeiras, abraços e muitos risos junto a jovens e crianças Javaé que sempre estavam juntos.

Aconteceu também a feira de troca e dança indígena. Logo de manhã do dia 06/07, parte dos caminhantes desceu o rio num percurso de 2:30h até a aldeia Imoti 2. Ficaram na escola da aldeia Txuire alguns caminhantes aguardando a segunda embarcação que só foi possível a tarde. As 18h todos se encontram na aldeia Imoti 2.

Foi espetacular descer o rio com a visão de prainhas e desfile exuberante das aves com suas cores e voos, foram muitos cantos de biguás , garças, e tantos outros pra mim não conhecidos, a eles me juntei a contar na canoa a deslizar para celebra com a natureza esse momento singular.

Dormimos ao lado da casa onde mora o filho de nosso guia, o indígena Idjharina, ante de dormir, roda em volta da fogueira, ensinamentos com Alencar e encontro com o cacique, Ichati e sua esposa. Abençoada noite as margens do rio, onde partimos pela manhã, andando parte na floresta e grande parte na várzea, em alguns lugares ainda com água até chegar ao lago Sorocan, belíssimo lago sua moldura intacta, repleto de aves, como biguás e garças ,jacarés, tucunarés, botos e muitas piranhas, onde não foi viável o banho pois duas pessoas da turma forma mordidos por elas, não grave apenas um aviso de que se faziam presente.

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Dormimos todos na mata as margens do rio, embalados por diversos sons, continuando a caminhada logo pela manhã, pela vastidão do cerrado, dormindo na estrada, chegado a aldeia Imoti 1 a tarde, onde ficamos acampados até a tarde do dia seguinte. Seguimos até a travessia do riozinho, lá fizemos o jantar e caminhamos silenciosamente a luz de uma esplendida Lua. 12 quilômetros, andados.

Acampamos para dormir as margens do rio Jaburu, tivemos sono e descanso restaurador, passando dia inteiro e para deleite de todos fomos presenteados com almoço farto, oferecido por dona Elza e Sr, Davi únicos moradores daquela região. Eles são conhecidos por todos, desempenham ali naqueles rincões a função de cuidadores de gados que hora ocupam a ilha em virtude do arrendamento.

O resto da tarde foi festa no rio, tomando banho, outros pescando, lavando roupa. Tivemos nessa tarde o privilegio de ouvir pelo rádio de dona Elza o Jogo do Brasil que disputava o terceiro lugar.

Agora a tardinha todos do acampamento já tendo feito a travessia do rio, bebem do sol calmo e vermelho que prenuncia a noite de lua cheia, que com imensa ternura e sabedoria nos integra a restaurar com as forças e sabedoria dos nosso ancestrais, que já estiveram aqui e os que ainda estão conosco, nos permitindo sentir o coração da Terra e a imensidão do Espirito de Deus.

Minha gratidão sincera e profunda a tudo e todos por esta vivendo essa oportunidade impar para mim, pedindo a todo universo e a Deus a proteção para meus pais, que tudo conspire para que eu possa abraça-los e ter mais tempo com eles.

Assim seguimos o caminho… rumo a aldeia Santa Isabel.

Raimundo “Paim” – Pernambuco

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

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