Simplicidade é liberdade

IMG_2227

Pelas estradas do Marajó, 2012 (foto de Marcello Borges)

Texto de Alessandra Rita

Há 5 anos caminho com o grupo, e o grande desafio para mim sempre foi a mochila. Afinal o que levar? Um ano levo uma pequena mochila e acabo precisando de algumas coisas que não levei, e todos irmãos com um coração grandão vêm me servir. Aí bate aquela vergonha, e no outro ano eu levo uma mochila enorme, muito pesada. E assim têm sido as minhas caminhadas, um ano muito, no outro tampouco.

Mas, com a mochila cheia ou vazia, tem uma bolsa essas tipo “necessaire” que me acompanha. Alguns a chamam de mente, cachola, cuca. Essa em muitos momentos se torna um fardo mais pesado do que o das costas.
Na última caminhada, que chamamos de “vagabundagem” (aconteceu na Chapada Diamantina, em janeiro de 2015), uma irmã me disse: “você tem síndrome de autossuficiência?” Fui refletindo nas palavras dela e permitindo que meu coração compreendesse o significado de doar e receber.
Me lembro que na primeira caminhada, todos que eu encontrava na Estrada diziam que todo mundo tem algo para doar.
Com a cuca mais leve, o coração frouxinho, no espírito da vadiagem, voltei para a beira do mar.
Todo ano separo um caderninho para eu escrever sobre a Caminhada, durante o percurso ou no final, mas quando volto pra casa, olho aquele caderninho e escrevo somente a mesma oração:
“Que os Orixás me abençoem e me guiem, para que eu consiga ver a Vida de forma mais simples. Simplicidade é liberdade.”

O peso que carreguei

img050

Naquela época eu pensava que cada um deveria cuidar do seu, e só. Para mim, o grupo servia unicamente para que ninguém se perdesse. Os que conhecessem o caminho marchariam à frente, os demais iriam atrás, e isso era tudo. E se fosse para se perder, que fosse todo mundo junto…

Essa visão individualista me fez carregar muito mais peso, físico e psicológico, do que o necessário. Afinal, eu deveria ter em minha mochila tudo o que pudesse vir a precisar: comida, utensílios de camping, produtos de higiene, medicamentos etc.. Minhas crenças tornavam a carga ainda maior, pois sabia que, caso me faltasse algo ou necessitasse de ajuda, eu não me permitiria recorrer a ninguém no meio do mato. Ficava constrangido ao receber refeições preparadas por outras pessoas, sem que eu tivesse contribuído em algo. Para ter direito, era preciso fazer por merecer. E eu não havia feito nada. Por isso, comia sozinho as “minhas” bolachas, a “minha” granola, os “meus” amendoins, por mais apetitoso que estivesse o arroz com cenoura de Zé Cláudio. Da mesma forma, não compartilhava o que tinha comigo. Se havia me preocupado em arrumar a mochila com todo o cuidado para não faltar nada, e carregava tudo aquilo nas costas ao longo de quilômetros, por que deveria emprestar ou doar a quem não se esforçara tanto quanto eu? Não compreendia como alguém aceitava carregar sozinho o peso de uma barraca durante um dia inteiro, para depois dividir a dormida com outra pessoa, eventualmente desconhecida.

Querem um exemplo da maneira como eu encarava essa questão?

Lembro-me de ter sido um dos poucos a levar corda de varal (uns cinco metros) e prendedores. A maioria dos caminhantes, não tão precavidos quanto eu, tinha de improvisar, estendendo suas roupas sobre rochas ou arbustos, nem sempre abundantes. Enquanto a plebe disputava cada espaço disponível para secar suas peças lavadas, eu detinha o “poder sobre a corda de varal”, e isso me proporcionava a sensação fascinante e mesquinha de pertencer a uma casta superior. Então, ao final de mais um dia, lavei minhas roupas, deixei-as penduradas no “meu” varal com os “meus” prendedores, e fui curtir, com soberba e tranquilidade, um merecido banho no poço do Ancorado, nos Gerais do Vieira. Qual não foi minha surpresa ao retornar à barraca, e encontrar a corda quase arriando, escorada com um pedaço de pau, a fim de suportar o peso de um monte de roupas que não eram as minhas, que aliás nem chegaram a secar, com tantos panos molhados a sufocá-las, como pessoas que se espremem num ônibus lotado, desafiando as leis da física.

“Que povo folgado!”, pensei, e me isolei ainda mais.

Esse comportamento foi se enfraquecendo ano após ano, graças às incontáveis bênçãos oferecidas com amor, leveza e desapego pelos irmãos mais evoluídos do que eu na grande caminhada. Por outro lado, minha experiência e a constante chegada de novos participantes me fizeram perceber que também tenho, sim, algo para oferecer, em vários aspectos além do material. E que doar ou compartilhar o que possuímos (possuímos mesmo? ou emprestamos do Universo?) não nos provoca nenhuma perda. Muito pelo contrário, nos torna mais ricos da verdadeira riqueza. Mas para isso precisamos aprender a enxergar a abundância em que vivemos, e nos sentir transbordantes de tudo.

Nesses anos de caminhadas, posso garantir que nunca faltou comida para ninguém. Quem levou mantimentos, e quem não levou, todos se alimentaram com fartura, havendo inclusive a distribuição dos excedentes de granola em várias ocasiões. Se me esqueci de algo importante, sempre apareceu alguém para me suprir.

E assim minhas mochilas, a material e a espiritual, têm se tornado cada vez mais leves.

A Coca Cola na Igrejinha

img049

Por incrível que pareça, havia Coca-Cola gelada na bodega ao lado da Igrejinha. A energia elétrica passava bem longe dali, porém havia várias nascentes nas proximidades, com água geladinha e abundante brotando das entranhas das rochas. A técnica de refrigeração consistia em imergir as latas num tonel contendo água coletada de manhã bem cedo. Em pouco tempo estavam geladas.

A logística, por sua vez, era mais complexa. Quatro pacotes com doze latas do refrigerante eram trazidos de Caeté-Açu, a cada carga em lombo de mula, numa viagem de dois dias de ida, e dois de volta. Não era à toa que já naquela época a unidade era vendida por R$ 3,00, quando o preço normal era um terço disso. Porém um viciado pagaria qualquer quantia para apaziguar sua síndrome de abstinência, que àquela altura já durava uns longos quatro dias. E não foram poucos os ávidos consumidores desse ícone do capitalismo, cujos tentáculos foram capazes de se estender até àquela localidade longínqua, aparentemente imune a esse tipo de influência. Desde a chegada dos primeiros caminhantes à minúscula vila, a informação sigilosa “tem Coca-Cola, três reais” já havia se disseminado no grupo, causando rebuliço e desejo de consumo. Embora não me considere um viciado, confesso que entrei na onda, numa atitude de libertação daqueles dias à base de bolacha, granola e barras de cereais, experimentando então uma profunda sensação de prazer ao arrotar longamente após os primeiros goles daquele líquido escuro, açucarado e gaseificado.

Todavia, o nosso pequeno ato subversivo e mundano não poderia macular nossa imagem perante “o mestre”. Conversávamos alegremente, eu e mais algumas figuras “iluminadas”, quando se ouviu o alerta “lá vem Antônio!!!” Para tudo! Todos se recolheram ao interior da bodega. Latas entocadas atrás do balcão. “Já passou”, e então pudemos concluir em paz o nosso momento de fraqueza de propósitos.

Avante caminhantes

Na energia do universo, no caminho da alma, no espírito dos ancestrais, na sagrada terra indígena da ilha do Bananal!

1

Ao iniciar o mês de julho adentramos às terras, águas flores e animais da ilha, com a benção dos índios Jawaé. Seguimos nos caminhos de muita vida, em partilha, reciprocidade e troca de saberes com os povos indígenas. Nos despedimos, depois de 20 dias, na aldeia Karajá de Santa Izabel do Morro. Atravessamos o Araguaia para um encontro muito especial, em São Felix do Araguaia, com D. Pedro Casaldáliga. Com sua ternura radical e testemunho profético nos conclamou para a causa indígena e nos abençoou como ancião, poeta e irmão maior na fé. Na momento da foto sorridente comentou “é proibido usar em campanha eleitoral.

Vinte dias de travessia e partilha. Quase 100 km de troca de passos, espaços e saberes. Uma caminhada memorável atravessando os medos e as belezas da maior ilha fluvial do planeta. Fomos os primeiros a fazer a travessia a pé. Muitas recomendações e temores: cuidado com as onças, os jacarés, as piranhas. Atravessamos ilesos todos esses medos e apreensões.

Os Jawaé, Karajá e Avá Canoeiro, povos guerreiros e resistentes, nos acolhem com alegria e sabedoria. Tudo no seu tempo e significado. As redes atadas na beira do rio ou da estrada, as barracas embaixo de frondosas mangueiras ou vegetação do cerrado. Tudo acontecendo a contento e a seu tempo.

Quarenta e quatro caminhantes, pé na estrada, mochila nas costas e o coração aberto para o diferente. Fomos sendo surpreendidos pelos bandos de biguá, garças, socó boi e uma infinidade de pássaros. Até os enormes Tuiuiu, em seus ninhos no alto das árvores, vigilantes com seus filhotes deram os ares de sua graça

Quando as bolhas, calos começaram aparecer, era a hora da solidariedade e as paradas para refazer as energias e tratar as feridas no corpo e na alma com os óleos naturais, e os cuidados necessários

A ilha do Bananal: belezas, impactos e ameaças

A ilha do Banana é berço natural de povos indígenas como os Jawaé e Karajá. Há mais de dois séculos se iniciou um processo de contatos e invasões por parte dos interesses nos recursos naturais e belezas da ilha. Porém a invasão maior se deu a partir de meados do século vinte, com a marcha para o Brasil Central. A partir de então interesses turísticos e da expansão pecuária se estabeleceram na ilha. Apesar de ser declarada Parque Nacional e a partir da década de 80, dois terços serem declarados Terra Indígena, as invasões estimuladas por políticos e o latifúndio, dez com que mais de 20 mil pessoas ocupassem a ilha, chegando a ter mais de 100 mil cabeças de gado.

2

No governo de Juscelino Kubitschek, foi construído um grande hotel, próximo à aldeia Kararjá de Santa Izabel, com o intuito de desenvolver ali um polo turístico. Serviu como local de férias e safari para os militares durante a ditadura. Foi repassado parar o governo de Goias no iíncio da década de 80, para utilização para o turismo na ilha. Felizmente o projeto não se consolidou. Os índios se livraram do pesadelo ateando fogo no lendário Hotel JK. Hoje restam apenas as ruinas entre árvores e as casas de palha de babaçu.

Outra grande ameaça foi o início da construção da estrada Transaraguaia, em 1983. Houve uma grande reação nacional, pois se considerava essa como “estrada da morte”, da insensatez, da ignomínia. Um absurdo. Teriam que ser feitos mais de 80 km de aterro de 3 a 6 metros. O impacto sobre o ecossistema da ilha seria fatal No depois de iniciadas as obras os índios Jawaé interromperam os trabalhos e obrigaram a retirada das máquinas. Porém até hoje continuam as pressões dos políticos e do agronegócio para a construção dessa estrada. Ainda no ano passado o governador do Tocantins, Siqueira Campos esteve com os Karajá tentando mostrar as vantagens da estrada, fazendo promessas e doando objetos agrícolas. Uma liderança Jawaé, solicitou aos caminhantes que os apoiássemos na luta contra a construção dessa estrada. Nos comprometemos com essa luta pelo bem da vida e da mãe terra. Vimos, sentimos e nos sintonizamos com o direito amplo de todas as formas de vida existentes na ilha do Bananal.

D. Pedro comentou que há mais de quatro décadas, quando aí chegou a ilha era um espetáculo pela exuberância de vida . Infelizmente já foi bastante impactada pelas sucessivas e variadas formas de invasão, principalmente pela pecuária e turismo.

3

Nos unimos, no caminho da resistência, afirmação de direitos e da vida, a todos os que lutam para que a ilha do Bananal continue sendo não apenas a maior ilha fluvial do mundo, mas também um exemplo de preservação sócio-ambiental.

Caminhantes da vida na “troca de saberes”, não apenas vivenciamos uma experiência admirável desse grande Brasil desconhecido, mas construímos e assumimos um compromisso com os povos indígenas e a ameaçada biodiversidade dessa região.

Avante caminhantes, o caminho se faz caminhando, com lutas concretas, sonhos e utopias.

Egon Heck e Laila Menezes

Cimi-Secretariado

Brasilia, 24 de julho de 2014

O caminho é mais curto, quando amigos nos acompanham

Foi assim unidos pelos os espíritos das flores, banhados e protegidos pelas Iaras, conspirados pelo universo, pelas forças e vozes da Terra, que quarenta e quatro pessoas se encontram.

Sem título1

Misturando cores, sons, formas e movimentos. Irmanando a mesma energia e amor que abraça e percebe o sagrado, primitivo, belo como se fizesse o caminho de volta para o gênese para a essência vital de tudo que existe, vestidos de aprendizes sutis, que pouco sabe da cultura ancestral dos povos Javaé e Caraja.

Nossa primeira oportunidade de troca de saberes foi na aldeia Txuire, onde fomos muito bem acolhidos, nos sentimos em casa pois esse povo já estão contaminados quase por inteiro com os nossos vícios e cultura branca.

Foram três dias de encontros, oficinas e passeios por suas casas, podendo ter uma rápida visão de suas vidas e ambiente. Durante o dia se celebrava a vida na escola, local escolhido para realização das oficinas e na vasta areia e águas do rio Javaé.

A noite nessa imensidão de areia em volta da fogueira troca de conhecimento, conversas, brincadeiras, abraços e muitos risos junto a jovens e crianças Javaé que sempre estavam juntos.

Aconteceu também a feira de troca e dança indígena. Logo de manhã do dia 06/07, parte dos caminhantes desceu o rio num percurso de 2:30h até a aldeia Imoti 2. Ficaram na escola da aldeia Txuire alguns caminhantes aguardando a segunda embarcação que só foi possível a tarde. As 18h todos se encontram na aldeia Imoti 2.

Foi espetacular descer o rio com a visão de prainhas e desfile exuberante das aves com suas cores e voos, foram muitos cantos de biguás , garças, e tantos outros pra mim não conhecidos, a eles me juntei a contar na canoa a deslizar para celebra com a natureza esse momento singular.

Dormimos ao lado da casa onde mora o filho de nosso guia, o indígena Idjharina, ante de dormir, roda em volta da fogueira, ensinamentos com Alencar e encontro com o cacique, Ichati e sua esposa. Abençoada noite as margens do rio, onde partimos pela manhã, andando parte na floresta e grande parte na várzea, em alguns lugares ainda com água até chegar ao lago Sorocan, belíssimo lago sua moldura intacta, repleto de aves, como biguás e garças ,jacarés, tucunarés, botos e muitas piranhas, onde não foi viável o banho pois duas pessoas da turma forma mordidos por elas, não grave apenas um aviso de que se faziam presente.

Sem título2

Dormimos todos na mata as margens do rio, embalados por diversos sons, continuando a caminhada logo pela manhã, pela vastidão do cerrado, dormindo na estrada, chegado a aldeia Imoti 1 a tarde, onde ficamos acampados até a tarde do dia seguinte. Seguimos até a travessia do riozinho, lá fizemos o jantar e caminhamos silenciosamente a luz de uma esplendida Lua. 12 quilômetros, andados.

Acampamos para dormir as margens do rio Jaburu, tivemos sono e descanso restaurador, passando dia inteiro e para deleite de todos fomos presenteados com almoço farto, oferecido por dona Elza e Sr, Davi únicos moradores daquela região. Eles são conhecidos por todos, desempenham ali naqueles rincões a função de cuidadores de gados que hora ocupam a ilha em virtude do arrendamento.

O resto da tarde foi festa no rio, tomando banho, outros pescando, lavando roupa. Tivemos nessa tarde o privilegio de ouvir pelo rádio de dona Elza o Jogo do Brasil que disputava o terceiro lugar.

Agora a tardinha todos do acampamento já tendo feito a travessia do rio, bebem do sol calmo e vermelho que prenuncia a noite de lua cheia, que com imensa ternura e sabedoria nos integra a restaurar com as forças e sabedoria dos nosso ancestrais, que já estiveram aqui e os que ainda estão conosco, nos permitindo sentir o coração da Terra e a imensidão do Espirito de Deus.

Minha gratidão sincera e profunda a tudo e todos por esta vivendo essa oportunidade impar para mim, pedindo a todo universo e a Deus a proteção para meus pais, que tudo conspire para que eu possa abraça-los e ter mais tempo com eles.

Assim seguimos o caminho… rumo a aldeia Santa Isabel.

Raimundo “Paim” – Pernambuco

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Ilha de Marajó 2012 Foto: Marcello Borges

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.