Caminho de Cora Coralina – Julho 2019

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Caminho de Cora Coralina – Julho 2019 Fotos: Leoncio Bragança

 

Caminho de Cora Coralina – Julho 2019 Fotos: Lisbeth oliveira

Caminhada – rumo a Terra Ronca

Quando os caminhantes da “troca de saberes” foram definindo seu roteiro, não tiveram dúvidas. Deixaram se embalar pelas energias da região conhecida por Terra Ronca, em função dos ruídos naquela caverna e também pelo Parque Estadual do mesmo nome. Seria ali que em torno de 60 pessoas iriam se encontrar e traçar os caminhos a serem percorridos. Região de muitas belezas, com mais de 60 cavernas, muitos rios e lindas cachoeiras. Era ali que iriam morar por alguns dias os sonhos caminhantes de gente de  diversas regiões do país, mais especificamente de Goiânia,  Pernambuco e Tocantins.

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Após percorrer grandes distâncias, é hora de experimentar o pó da região, acampar à beira da cachoeira de São Bernardo. Delícia para quem vem da secura do sertão, curtição para quem vem das regiões de águas e rios poluídos, sem precisão.

Não foram  feitos grandes percursos a pé. Apenas o suficiente para sentir as energias da região que foi  impactada pela agropecuária, felizmente em recesso.

Alegria e calor do encontro e reencontro

Um dos aspectos importantes, durante o caminho é  sentir-se e sentir o outro. Os abraços demorados e calorosos,  são carregados da alegria e felicidade do reencontro. Também os novos caminhantes são incorporados à roda da vida com muita esperança. Como o grupo era grande e a noite já ia avançada, foi sugerido que apenas se cumprimentasse com abraço, aos novos membros.  Não houve jeito. Todos se tornaram novos e os abraços foram gerais, no pé das montanhas gerais.

Do ventre da mãe terra

Me senti no ventre da mãe terra, ao ser envolto na beleza da caverna de São Bernardo. Foi como adentrar a escuridão da noite em pleno meio dia. Sentir a cada passo a leveza da água escorrendo pelos pés, os olhos ofuscados com a suavidade da luz dos carburetos e lanternas deslumbrando  o encanto, quase em pranto, a cada nova maravilha. Quando brilhavam os estalactites e estalagnites, formando figuras, minha alma subia ao teto dos salões e se incorporava no festival de beleza.

Carona na Caravana da paz e Enca

Após percorrer caminhos  pela natureza, do cerrado restante,  instantes de partilha e reflexão. Fomos juntando nossos parcos conhecimentos com os sentimentos que foram brotando da realidade sentida, num belo festival da vida em pleno  chão esturricado pela seca.  Gratidão. Essa é talvez a melhor expressão dos nossos sentimentos.

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Quando  estávamos buscando uma forma de encerrar nossa caminhada com chave de ouro, na caverna Angélica, distante mais de 30 km de Terra Ronca, eis que surge a inconfundível Wipalla, um locomóvel a serviço da Caravana da Paz, que há 30 anos iniciou no México e continua viajando e propiciando momentos de formação pelas Américas, tendo sempre como horizonte a construção de uma cultura da Paz.

Nossa caminhada estava precedendo a realização do 39º Encontro Nacional de Comunidades Alternativas – ENCA.  Esse é um dos momentos  de socialização e intensificação da  alternativas já encontradas, diante do fracasso do modelo capitalista que se pretende impor em todo o planeta. É um modelo necrófilo que só gera sofrimento e destruição.

Foto Wipalla

Fica sempre um pouco de perfume

Quando a caminhada vai terminando já começa a saudade. Aquele gosto gostoso de quem deixou um pouco de si e acolheu em seu coração tantas vidas, alegrias e belezas. Caminhar é preciso. Partilhar solidariamente vida e caminho, também.

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Já na despedida, em pleno caminho, recebemos e socializamos, a linda carta enviada por Samara (TO) : “A todos caminhantes sou grata a cada um que esteve comigo me proporcionou carinho, afeto e amizade… e  por me ensinar que cada dia deparamos com diversidades e me mostraram que, quando acreditamos em nós tudo deixa de ser impossível é se torna possível de acontecer dependendo de qual for objetivo. A força está dentro de nós basta deixar fluir pensamentos sinceros que o sucesso da vida é a vitória.

Para mim foi uma caminhada sensacional, ter conhecido cada uma de vocês… como diz: Charles Chaplin cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.

Em poucas palavras quero demonstrar meu imenso carinho e amor, mesmo que alguns de vocês eu nunca mais encontre na caminhada da vida…quero que saiba que cada um foi importante para mim. Que Deus retribui, pois nunca poderei retribuir tanta gentileza. Grata por tudo! Eu caminhei e caminhei e caminhei … que todos fazem uma boa caminhada.

Ps; espero estar na próxima caminhada rs …

Gratidão!  Beijos e Beijinhos com carinho de Samara Kelly)  Palmas 10/07/ 2015 Awire soré …

Egon, Laila e Silésia

Brasília, 30 de julho de 2015

Simplicidade é liberdade

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Pelas estradas do Marajó, 2012 (foto de Marcello Borges)

Texto de Alessandra Rita

Há 5 anos caminho com o grupo, e o grande desafio para mim sempre foi a mochila. Afinal o que levar? Um ano levo uma pequena mochila e acabo precisando de algumas coisas que não levei, e todos irmãos com um coração grandão vêm me servir. Aí bate aquela vergonha, e no outro ano eu levo uma mochila enorme, muito pesada. E assim têm sido as minhas caminhadas, um ano muito, no outro tampouco.

Mas, com a mochila cheia ou vazia, tem uma bolsa essas tipo “necessaire” que me acompanha. Alguns a chamam de mente, cachola, cuca. Essa em muitos momentos se torna um fardo mais pesado do que o das costas.
Na última caminhada, que chamamos de “vagabundagem” (aconteceu na Chapada Diamantina, em janeiro de 2015), uma irmã me disse: “você tem síndrome de autossuficiência?” Fui refletindo nas palavras dela e permitindo que meu coração compreendesse o significado de doar e receber.
Me lembro que na primeira caminhada, todos que eu encontrava na Estrada diziam que todo mundo tem algo para doar.
Com a cuca mais leve, o coração frouxinho, no espírito da vadiagem, voltei para a beira do mar.
Todo ano separo um caderninho para eu escrever sobre a Caminhada, durante o percurso ou no final, mas quando volto pra casa, olho aquele caderninho e escrevo somente a mesma oração:
“Que os Orixás me abençoem e me guiem, para que eu consiga ver a Vida de forma mais simples. Simplicidade é liberdade.”

O peso que carreguei

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Naquela época eu pensava que cada um deveria cuidar do seu, e só. Para mim, o grupo servia unicamente para que ninguém se perdesse. Os que conhecessem o caminho marchariam à frente, os demais iriam atrás, e isso era tudo. E se fosse para se perder, que fosse todo mundo junto…

Essa visão individualista me fez carregar muito mais peso, físico e psicológico, do que o necessário. Afinal, eu deveria ter em minha mochila tudo o que pudesse vir a precisar: comida, utensílios de camping, produtos de higiene, medicamentos etc.. Minhas crenças tornavam a carga ainda maior, pois sabia que, caso me faltasse algo ou necessitasse de ajuda, eu não me permitiria recorrer a ninguém no meio do mato. Ficava constrangido ao receber refeições preparadas por outras pessoas, sem que eu tivesse contribuído em algo. Para ter direito, era preciso fazer por merecer. E eu não havia feito nada. Por isso, comia sozinho as “minhas” bolachas, a “minha” granola, os “meus” amendoins, por mais apetitoso que estivesse o arroz com cenoura de Zé Cláudio. Da mesma forma, não compartilhava o que tinha comigo. Se havia me preocupado em arrumar a mochila com todo o cuidado para não faltar nada, e carregava tudo aquilo nas costas ao longo de quilômetros, por que deveria emprestar ou doar a quem não se esforçara tanto quanto eu? Não compreendia como alguém aceitava carregar sozinho o peso de uma barraca durante um dia inteiro, para depois dividir a dormida com outra pessoa, eventualmente desconhecida.

Querem um exemplo da maneira como eu encarava essa questão?

Lembro-me de ter sido um dos poucos a levar corda de varal (uns cinco metros) e prendedores. A maioria dos caminhantes, não tão precavidos quanto eu, tinha de improvisar, estendendo suas roupas sobre rochas ou arbustos, nem sempre abundantes. Enquanto a plebe disputava cada espaço disponível para secar suas peças lavadas, eu detinha o “poder sobre a corda de varal”, e isso me proporcionava a sensação fascinante e mesquinha de pertencer a uma casta superior. Então, ao final de mais um dia, lavei minhas roupas, deixei-as penduradas no “meu” varal com os “meus” prendedores, e fui curtir, com soberba e tranquilidade, um merecido banho no poço do Ancorado, nos Gerais do Vieira. Qual não foi minha surpresa ao retornar à barraca, e encontrar a corda quase arriando, escorada com um pedaço de pau, a fim de suportar o peso de um monte de roupas que não eram as minhas, que aliás nem chegaram a secar, com tantos panos molhados a sufocá-las, como pessoas que se espremem num ônibus lotado, desafiando as leis da física.

“Que povo folgado!”, pensei, e me isolei ainda mais.

Esse comportamento foi se enfraquecendo ano após ano, graças às incontáveis bênçãos oferecidas com amor, leveza e desapego pelos irmãos mais evoluídos do que eu na grande caminhada. Por outro lado, minha experiência e a constante chegada de novos participantes me fizeram perceber que também tenho, sim, algo para oferecer, em vários aspectos além do material. E que doar ou compartilhar o que possuímos (possuímos mesmo? ou emprestamos do Universo?) não nos provoca nenhuma perda. Muito pelo contrário, nos torna mais ricos da verdadeira riqueza. Mas para isso precisamos aprender a enxergar a abundância em que vivemos, e nos sentir transbordantes de tudo.

Nesses anos de caminhadas, posso garantir que nunca faltou comida para ninguém. Quem levou mantimentos, e quem não levou, todos se alimentaram com fartura, havendo inclusive a distribuição dos excedentes de granola em várias ocasiões. Se me esqueci de algo importante, sempre apareceu alguém para me suprir.

E assim minhas mochilas, a material e a espiritual, têm se tornado cada vez mais leves.

A Coca Cola na Igrejinha

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Por incrível que pareça, havia Coca-Cola gelada na bodega ao lado da Igrejinha. A energia elétrica passava bem longe dali, porém havia várias nascentes nas proximidades, com água geladinha e abundante brotando das entranhas das rochas. A técnica de refrigeração consistia em imergir as latas num tonel contendo água coletada de manhã bem cedo. Em pouco tempo estavam geladas.

A logística, por sua vez, era mais complexa. Quatro pacotes com doze latas do refrigerante eram trazidos de Caeté-Açu, a cada carga em lombo de mula, numa viagem de dois dias de ida, e dois de volta. Não era à toa que já naquela época a unidade era vendida por R$ 3,00, quando o preço normal era um terço disso. Porém um viciado pagaria qualquer quantia para apaziguar sua síndrome de abstinência, que àquela altura já durava uns longos quatro dias. E não foram poucos os ávidos consumidores desse ícone do capitalismo, cujos tentáculos foram capazes de se estender até àquela localidade longínqua, aparentemente imune a esse tipo de influência. Desde a chegada dos primeiros caminhantes à minúscula vila, a informação sigilosa “tem Coca-Cola, três reais” já havia se disseminado no grupo, causando rebuliço e desejo de consumo. Embora não me considere um viciado, confesso que entrei na onda, numa atitude de libertação daqueles dias à base de bolacha, granola e barras de cereais, experimentando então uma profunda sensação de prazer ao arrotar longamente após os primeiros goles daquele líquido escuro, açucarado e gaseificado.

Todavia, o nosso pequeno ato subversivo e mundano não poderia macular nossa imagem perante “o mestre”. Conversávamos alegremente, eu e mais algumas figuras “iluminadas”, quando se ouviu o alerta “lá vem Antônio!!!” Para tudo! Todos se recolheram ao interior da bodega. Latas entocadas atrás do balcão. “Já passou”, e então pudemos concluir em paz o nosso momento de fraqueza de propósitos.